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Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

Trivial e Singular

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Sou abençoada..

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Hoje enquanto me vestia no gym tinha à minha frente uma monitora do ginásio e uma sócia a conversarem sobre o filho e o neto, respetivamente. Ao contrário da maioria das conversas que lá oiço, que são sobre as notas dos miúdos, as roupas, as atividades extra e uma série de outras coisas importantes, mas menos. Hoje, esta mãe e esta avó estavam a partilhar a experiência que tinham com o filho e neto prematuros. Ambos nasceram com menos de 28 semanas e com menos de 1kg. Ambos ficaram nos cuidados neo-natais 3 meses. Ambos tiveram problemas de saúde graves, um deles até teve de fazer uma cirurgia ao coração. Ambos são alvo de vigilância médica frequente e ambos exigem ainda atenções redobradas dos pais e familiares. Um deles tem 3 anos e parece estar a ter um desenvolvimento normal,.. fala, anda, interage e até já está na creche. O outro tem dois anos e ainda não diz uma palavra, nem sequer uma sílaba. A tristeza com que a avó contava que ele não falava comoveu-me. Percebi que era uma avó presente, muito atenta e agradecida pelo neto que tem, mas também muito preocupada com a sua saúde e com muito receio de que tenha a fala comprometida. 

Surpreendeu-me nestas duas mulheres a força com que falavam, o modo como trocavam as experiências e a história de cada uma, sem se lamentarem ou apresentarem um discurso depressivo e angustiante. Ambas terão sofrido muito e certamente que vivem sempre com a angústia e o receio de a qualquer momento poderem perceber que a criança que amam pode ter a vida condicionada pelo facto de ser prematura. Confesso que me senti envergonhada por pensar no quanto sou abençoada, na sorte que tive em ter tido uma gravidez saudável, um parto que correu bem e um bebé que sempre foi saudável e perfeito. Senti vergonha dos momentos em que me sinto cansada, dos momentos em que me queixo do trabalho que um bebé dá, da falta de tempo, das noites mal dormidas. Senti vergonha porque sei que as mães de bebés prematuros, essas sim, sofrem uma mudança de 180º nas suas vidas. Estão sempre na expetatativa do que poderá acontecer, nunca sabem como será o amanhã e agradecem cada dia que têm com os seus filhos. Efetivamente, é fácil esquecermos a sorte que temos e apenas lamentarmos o que não temos, quando somos abençoados e somos uns sortudos por termos aquilo que mais importa enquanto pais - filhos saudáveis e felizes.