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Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

Trivial e Singular

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O homem que é pai

 

 

Desde que somos crianças que vamos percebendo que a sociedade espera comportamentos diferenciados dos rapazes e das raparigas, dos homens e das mulheres. Os homens não choram, são fisicamente mais fortes, têm mais liberdade,.. as mulheres são mais sensíveis, são mais românticas, são dadas aos pormenores, e por aí em diante. Esta diferenciação confere na maioria das vezes um papel de superioridade, ou de sexo forte, aos homens. Estes acabam por ter melhores empregos, ganhar mais dinheiro, ter mais independência, ser alvo de maior tolerância no gozo da sua liberdade, têm mais tempo para escolher uma companheira, não têm um relógio biológico com validade, entre outras coisas. Tudo isto parece muito positivo e até agradável de se viver, mas será que isto é sentido desta forma pelos homens? Não sei, sou mulher. No entanto, tenho-me apercebido de algumas coisas à medida que os rapazes passam a jovens e de jovens a adultos, de solteiros a casados e de casados a pais.

 

À primeira vista parece que os homens têm uma vida mais interessante, de maior poder e de maior sucesso que as mulheres, que enfrentam desde cedo uma série de expetativas, pressões e preconceitos. Mas será mesmo assim? Será que são os homens a ter sempre o “melhor papel” neste filme que é a vida?

 

Julgo que a sociedade é um pouco ingrata com os homens (com as mulheres sempre o foi, já sabemos, mas podemos até tirar alguns benefícios disso). Quando o homem casa tem a obrigação de ser capaz de sustentar o lar. É certo que a mulher da sociedade atual é independente financeiramente e usufrui de um rendimento que é necessário para a vida em família. Mas, é o homem que tem de ter o salário maior, é o homem que tem de saber como enfrentar os percalços, é o homem que tem de saber tomar as decisões certas, é o homem que vai ser visto como competente, inteligente, ambicioso quando consegue que a sua família tenha um bom estilo de vida. Mas também é o homem que é burro, preguiçoso, influenciável, incompetente quando algo não corre bem à família. É do homem que se espera as decisões mais acertadas, a coragem e a perspicácia para arriscar nos momentos certos. Quando consegue é bestial,  quando falha é uma besta.  Tudo isto ganha uma maior dimensão quando surgem os filhos. Quando é preciso mais dinheiro para aquelas atividades extra curriculares que são fantásticas para o desenvolvimento físico e intelectual, para frequentar aquele colégio que é de topo e dá uma educação de primeira, para fazer aquelas férias em família fantásticas e super estimulantes. Nem sempre isto é possível. Para a maior parte das famílias não é mesmo possível e quando tal acontece a culpa é do homem. O homem até pode ter um bom emprego e a mulher estar desempregada ou ser doméstica, mas é ele que devia ter um emprego melhor ou ganhar mais. É ele que se devia fazer à vida.

 

Apesar de o homem ter de fazer tudo para assegurar o bem-estar da sua família, não lhe é permitido gozar tanto da sua família como às mulheres. Ninguém se importa ou se impressiona com uma mulher que passa 20 minutos a falar de quanto os filhos são lindos, a mostrar as fotos que tem deles, a falar das asneiras que fizeram ou dos feitos que alcançaram. Todos sabem que mãe é mãe. A mãe pode beijar, cuidar e mostrar todo o afeto que tem pelos aos filhos, aos próprios filhos e aos outros. E o ao homem, isso é permitido? Ele até pode fazê-lo, mas será alvo de algumas críticas e alguns comentários depreciativos por parte dos amigos e por isso vai conter-se nos seus comportamentos. Vai olhar para o filho e pensar que o ama loucamente e que é um miúdo precoce, inteligente ou fantástico, mas não vai dizê-lo. Vai vê-lo cair e se estiver acompanho vai dizer “levanta-te, não sejas maricas”. O homem que é pai não tem a sorte da mulher que é mãe de poder ser o que sente, de poder ser o pai que é. O homem que é pai carrega uma família às costas, o medo de falhar e os olhares da sociedade. O homem que é pai não é assim tão livre, tão poderoso e não tem tanto sucesso como faz parecer. O homem que é pai sofre e luta diariamente para ser melhor pai e continuar a ser o homem que a sociedade espera que ele seja. É duro ser pai.