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Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

A sorte que temos e que esquecemos

Desde que sou mãe que penso muito nas mães... na minha mãe, nas boas mães, nas más mães, nas mães que nasceram para ser mães, nas que nunca deveriam ter filhos, nas mães que têm o apoio do marido e da família, nas mães que estão sozinhas todos dos dias, nas mães que perderam os seus filhos, mas especialmente nas mães que sofrem diariamente a dor dos seus filhos. Desde que sou mãe que fiquei mais sensível ao sofrimento das mães e adquiri melhor compreensão da angústia e do medo com que uma mãe vive. Medo do futuro dos filhos,.. medo que tenham doenças, que não sejam felizes, que não tenham amigos, que tenham uma vida difícil,.. claro que estes pensamentos surgem, no meu caso, porque tudo corre tão bem que às vezes nem acredito que assim possa ser durante muito tempo. Dou por mim a pensar “só espero que o meu filho seja sempre assim tão feliz”.

 

Eu sou uma mãe com sorte. Tenho um filho saudável, bem-disposto e super sorridente. Tenho um marido fantástico que está sempre presente e ajuda no que pode. Tenho uma família presente e uma mãe sempre disponível para ajudar, seja com o bebé, com a casa ou a roupa. Apesar disto, tenho dias menos bons e estes só acontecem porque em algumas noites durmo muito pouco. O meu baby ainda mama durante a noite e por vezes acorda de 2h em 2h para comer e eu acabo por não ter um sono reparador. Às vezes sinto que ainda estou a adormecer e já tenho novamente de acordar. Outras vezes acabo por nem conseguir adormecer e quando durmo acordo muitas vezes ao mínimo som. Mas, apesar disto, logo pela manhã o meu baby presenteia-me com uma boa disposição contagiante e um sorriso rasgado. Acorda bem-disposto, pronto para a brincadeira e cheio de vontade de comunicar. A alegria de vê-lo tão bem repõe as minhas energias e faz-me de imediato ganhar forças para mais um dia, seja com ele ou a trabalhar. E assim se passam os dias... cansaço, noites mal-dormidas, sorrisos que revitalizam, baterias recarregadas, noites mal-dormidas, cansaço, gargalhadas de energia and so on. Tenho de admitir que este é um ciclo maravilhoso e não conhecia nada, até ao momento, que pudesse ser tão revitalizante como o sorriso, a gargalhada e a alegria do nosso filho.

 

É a consciência deste processo que me faz pensar nas outras mães. Nas mães cujos filhos nasceram com graves problemas de saúde. Que têm paralisia cerebral, espinha bífida, trissomia 21, atrasos do desenvolvi mento e muitas outras patologias em que o desenvolvimento não ocorre da forma esperada, em que depois de uma noite mal-dormida as espera um dia ainda mais sofrido,.. consultas, terapia da fala, terapia ocupacional, fisioterapia, medicamentos a toda a hora, pouca ou nenhuma autonomia por parte das crianças e uma total ausência de tempo por parte das mães para respirar, para tomarem um banho relaxante, para lerem uma revista, para se sentarem na varanda a aproveitar o sol e, essencialmente, para desfrutarem de um momento de descanso e tranquilidade. Acredito que nos momentos de introspeção esteja sempre presente o medo, a angústia, a antecipação do que está para vir, a incerteza sobre o futuro, o medo de não estar à altura, o cansaço da luta diária e mil e um cenários sobre o que o futuro poderá reservar aos filhos. É quando o meu filho me sorri e reage a uma brincadeira nova que me encho de orgulho e sinto uma felicidade inexplicável. É também nestes momentos que me recordo das mães que não vivem esta felicidade tão presente, que não têm em cada novidade uma reação, que não recebem diariamente um sorriso dos filhos, que não veêm de semana para semana evoluções nos seus filhos, no que fazem e dizem. A estas mães só posso desejar que tenham ainda mais força e que não tenham vergonha de pedir ajuda. Estas mães, mais do que todas as outras vivem o que é ser mãe e merecem o apoio e a compreensão de todas nós, que muitas vezes nos queixamos, lamentamos e na realidade não temos a mínima razão para o fazer. Somos umas privilegiadas.