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Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

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A exploração do privado e a incompetência do público

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A situação que o nosso país atravessa é crítica no que se refere ao desemprego, e especialmente desemprego jovem. É verdade que a crise ditou a falência de muitas empresas, é verdade que há concelhos que praticamente vivem do comércio, é verdade que há pouca indústria em Portugal, é verdade que se produz pouca riqueza, é verdade que se consome mais do que se produz,.. e como é óbvio, com o final dos tempos áureos, o desemprego passou a ser uma realidade para muitas famílias. Acredito que o nosso país está a passar por uma fase de transição e que as próximas gerações serão mais autónomas e mais capazes de criar o seu próprio emprego e riqueza. A minha geração, filha dos da geração de Abril, foi estimulada a estudar e a acreditar no emprego para a vida. Foi assim com os nossos pais, porquê é que não havia de ser assim connosco, também? Especialmente, porque somos todos Doutores? Também a ideia de ter um emprego no setor público era ambicionada e vista como o melhor emprego a ter, com direitos, horários, férias pagas, indemnizações e até a fantástica ADSE. Agora tudo mudou,.. o mundo, a Europa, Portugal e a nossa vida. Por tudo isto, compreendo que o centro de emprego - IEFP - não seja muito competente no desenvolvimento de medidas e oportunidades que fomentem a empregabilidade. No entanto, não consigo deixar de acreditar que há muito trabalho mal feito e muita falta de vontade. Ao mesmo nível não consigo deixar de destacar a Segurança Social, que também não vejo como muito competente, a não ser a criar problemas, juros e a cobrá-los. 

No meio de tudo isto revolta-me a quantidade de privados que se aproveitam das fragilidades do sistema e que contribuem para a precariedade. Aqui falo dos falsos recibos verdes, para muita gente, muito falsos; falo do sucessivo recurso das empresas a programas de estágios profissionais; do recurso ao programa Estímulo (que parece estar muito na moda) e não posso deixar de fora o não menos comum e frequente, recurso a trabalhadores não legais, a quem não são pagos os respetivos deveres. Em relação a isto, pergunto-me, o que é que a Segurança Social anda a fazer? Como é possível não haver maior vigilância e fiscalização a empresas que estão sucessivamente, e nas barbas destas entidades, a contribuir para o mercado negro, a ganhar à custa da pobreza e da necessidade dos que precisam? Muitos dirão que a culpa é de quem se coloca nesta situação. É verdade, concordo em absoluto que muitas pessoas se acomodam às tristes oportunidades que têm e não exigem aquilo a que têm direito. Porém, como elas próprias poderão dizer “se eu não aceitar estas condições, não falta quem aceite”. E esta é a triste realidade, aquela que contribui para que o triste ciclo se mantenha. O ciclo de abuso das empresas, que para além da riqueza que geram com a sua unidade de negócio enchem ainda mais os bolsos à custa das condições miseráveis que oferecem aos seus colaboradores. 

Supostamente uma empresa não pode estar frequentemente a contratar estagiários, sem contratar ou manter, posteriormente, os serviços do estagiário. Mas não é isso que acontece. Conheço empresas que vivem só e apenas de estágios profissionais. Supostamente, e de acordo com o código do trabalho, quem trabalha a recibos verdes não aufere sempre do mesmo valor de rendimentos, mês após mês, ano após ano; pois é, conheço pessoas que em tudo têm todas as regras e obrigações de um contrato de trabalho, mas estão a recibos verdes, ou seja, pagam uma fortuna de IRS e pagam à sua custa a segurança social. Pior ainda, conheço quem tenha oferecido estágio profissional, e no final tenha mandado a pessoa embora para receber o subsidio de desemprego, mas a tenha mantido empregue, ilegalmente claro, pagando-lhe a diferença entre o que recebia no estágio e o que recebe agora com o subsídio de desemprego. Ou seja, a pessoa está teoricamente desempregada, tem de cumprir os requisitos de procura de emprego, mas está a desenvolver o trabalho e a cumprir o horário que o patrão lhe estabeleceu, mas este só lhe paga o que falta, do subsidio de desemprego, para os 600€. Isto é vergonhoso, mete-me nojo mesmo. 

Eu sempre foi pró-patrão. Tenho uma forma de estar e de ver os recursos humanos e as empresas muito focada nos interesses da própria empresa e do negócio. Acho que as empresas não são a Santa Casa da Misericórdia, não acho que devem fazer caridade e devem acima de tudo defender a sua sustentatibilidade, a produtividade e o lucro, o que em momentos de crise como o que vivemos pode implicar o despedimento. No entanto, sou total e absolutamente contra a exploração, a máxima do “maior lucro, menor despesa”, acho que são as pessoas e a sua dedicação que fazem as empresas e como tal acho que devem ser sempre devidamente recompensadas e sempre em função do que contribuem e produzem para a produtividade da empresa. 

Tudo isto deixa-me muito triste,.. e revoltada,. e frustrada.