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Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

Trivial e Singular

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Quando as nossas falhas se refletem nos filhos

Na caminhada pelos seus dois aninhos é perceptível que o baby está cada vez mais menino, “mais rapazinho”, como diz a avó. As suas tentativas de afirmação culminam cada vez mais em birras. Os nãos dele (e nossos) são uma constante. Já não acede tão facilmente às nossas instruções, não está tão receptivo a ceder e cada vez mais tenta impor as sua vontades, por mais despropositadas que sejam. É frequente ouvi-lo dizer “o D. não quer” ou “o D. quer” ou a repetir de forma bastante assertiva “não, não, não,.. não quer”. Sei que com esta idade, ele ainda está a desenvolver o seu pensamento e que as suas ações resultam muito mais da aprendizagem e da repetição, do que do planeamento. Mas é evidente que já tem vontades e expectativas, que já tem preferências e interesses. E custa-me tanto, tanto vê-lo ficar desiludido. Sei bem que o nível de desilusão dele é muito diferente do nosso e que a frustração que ele sente é em relação a coisas muito pequenas da vida, que na realidade ele ainda não consciência e muito menos expectativas sobre as coisas mais sérias e importantes da vida. No entanto, já me custa tanto vê-lo ficar triste, desiludido, furioso e até a chorar por as coisas não acontecerem como ele desejaria. E aqui refiro-me a coisas tão simples como: ele querer ficar com a mãe quando eu o deixo na casa da avó para ir trabalhar; quando ele me agarra no braço e me diz “comigo, comigo”, querendo dizer, “leva-me contigo”; quando chega a casa e não vê o pai ou a mãe porque estão a trabalhar; quando o pai sai depois do jantar porque tem de ir novamente trabalhar. Ele ainda é tão novo e já ouve tantas vezes a palavra trabalho.  Não faço ideia do que poderá significar para ele, mas é certo que sabe que é algo importante e que muitas vezes se sobrepõe ao tempo que passamos com ele.

Também o tempo que passamos com ele não é sempre tão bom como gostaríamos. Quando fui mãe, achei que seria uma boa mãe e que daria uma experiência aos meus filhos diferente, em algumas coisas, daquela que os meus pais me deram a mim. Sempre ouvi dizer que os avós ficam derretido com os netos, porque têm mais tempo e disponibilidade emocional para eles. Eu sempre achei que neste ponto ia ser diferente e que ia estar sempre disponível emocionalmente para ele. Mas, infelizmente, tenho-me visto a falhar. Embora me custe admitir, tenho percebido que nos últimos meses é frequente, eu e o pai, estarmos com ele, mas termos o pensamento preso a alguma preocupação (trabalho, contas, decisões, problemas, saúde,. Família,..), estarmos com ele a pensar no que temos para fazer a seguir; estarmos com ele a pensar que estamos cansados e só queríamos era deitar e dormir. Não imaginei que fosse falhar nisto, achei mesmo que ia conseguir ser diferente, mas infelizmente agora percebo que é inerente à condição de ser pai ou mãe.

Ser pai e mãe é querer o melhor para os filhos. Querer dar comida, roupa, calor, conforto, experiências, oportunidades,.. e tudo isto exige tempo e trabalho. Eu sei que o D dá trabalho aos meus pais e que eles ficam por vezes cansados dele, mas ao contrário de nós, já não estão a viver a saga da conquista da vida adulta. Já estão numa fase mais calma,  de menos luta, de menos trabalho. É óbvio que têm as suas preocupações, muito diferentes das minhas e certamente muito relevantes também. No entanto, conseguem apreciar, deliciar-se com as mais pequenas coisinhas que o neto faz, conseguem admirar, ficar surpreendidos e dedicar-lhe um tempo de muito amor e de muita qualidade, ainda que não vão a grandes sítios com ele ou deem grandes passeios. Essa parte fica para nós, mas reconheço que se calhar nem sempre acontece com a melhor disposição. E por muito que eu compreenda que faz parte da maternidade, ultimamente faz-me sentir muito mal, muito triste. Percebo claramente que o D. adora estar comigo, quer a minha presença para tudo e anseia pela minha chegada todos os dias. Sinto que é tão mau quando o deixo a dormir em casa dos avós para nós podermos ter uma noite melhor, para dormirmos 8h e não acordarmos 5 ou 6h depois de nos deitarmos. Sinto-me realmente angustiada e com receio de não ser a mãe que desejei e imaginei que seria.