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Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

Trivial e Singular

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Praxes, praxistas e fundamentalistas

Vai uma aposta? Hoje os principais noticiários vão avançar com alguma notícia (ou muitas) sobre a tragédia do Meco e alguma outra sobre as praxes… sobre a lei das praxes, a falta de leis, o papel do Ministério do Ensino Superior, o papel das Universidades, o parecer dos líderes das Associações Académicas, os exemplos dos estudantes e por aí em diante, mais do mesmo. Estou cansada deste assunto. Não o acompanhei desde o início, porque coincidiu com o nascimento do meu baby, mas também não fez diferença porque os noticiários parecem não ter nada mais interessante para noticiar e insistem, insistem e insistem neste assunto. Já chega, não?

 

Estou também cansada dos fundamentalismos dos que se posicionam face ao assunto praxe. Quem a defende assegura que é um veículo de integração social, que facilita a adaptação ao mundo universitário, que permite criar laços, evitar a solidão de quem está deslocado da sua área de residência and so on. Humilhação? Submissão? Insultos? Não, isso não existe… quem diz isso ou está a mentir ou é muito sensível e não percebe que é tudo uma grande brincadeira que visa ajudar estes ingratos que agora se estão a queixar. Mas que mal-agradecidos. E quem é que defende a praxe? Habitualmente são aqueles que praxaram (e que muito provavelmente também foram praxados) e os senhores Doutores e Engenheiros que fazem parte das comissões de praxes e associações académicas, especialmente aqueles que exibem de forma orgulhosa as suas muitas fitas de curso, representativas dos muitos anos e matriculas que levam no curriculum. Que tristeza. Desde quando é que alguém se deve orgulhar por estar há 10, 15 ou 20 anos na Universidade para fazer cursos de 5 anos? Ok, há exceções, não é? Mudanças de curso, transferências de Universidades, melhorias de notas, licenciatura seguida de mestrado, mais uma ou outra pós-graduação, mais uns anos gastos nos bares académicos, na organização dos desfiles, nas queimas das fitas e por aí em diante. Espera-se uma correlação positiva entre o avançar da idade e o desenvolvimento da maturidade e responsabilidade, mas parece que não é bem assim, ou não é sempre assim. Na minha modesta opinião, e com base na minha experiência académica, são precisamente estes seres dotados de elevada inteligência e brio académico que incentivam as praxes e aliciam o pessoal dos 2º ou 3º anos dos cursos a praxar. Eu vivi isto. Não eram os Doutores ou Engenheiros com 3 matrículas, a frequentar o 3º ano que instigavam o medo, que insultavam ou que se lembravam das piores “brincadeiras”. Esses preocupavam-se em levar-nos às salas de aula, davam informação sobre os professores, as disciplinas, as avaliações e a escolha de turnos. Os outros, os mais velhos, os mais sabedores, faziam-nos esperas, incentivavam-nos a faltar às aulas, levavam-nos para bares e cafés, exibiam-se a fumar e a beber e estimulavam os mesmos comportamentos nos caloiros que queriam ser fixes e aceites por estes veteranos. Assisti a muita porcaria, a humilhações, a faltas de respeito e muitos insultos. Vi pessoal e desistir, a chorar e a fugir. Eu? Eu participei no que achava aceitável, tentei não dar nas vistas nem ser uma totó (facilmente percebi que esses eram as principais vitimas), mantive-me a maior parte do tempo dentro do campus universitário e assim fui levando a praxe. Se gostei? Gostei das canções, das guerras de curso, do espírito de união do grupo e pouco mais. Se achava necessário para me integrar? Não. Teria conhecido pessoal e feito amizades da mesma forma. O que tiro da praxe? Uma experiência, mais uma para a vida. Permite-me nesta fase filtrar as muitas informações e depoimentos que vejo na TV. Permite-me não ser inocente, como me parece que são alguns dos pais das vítimas da tragédia do Meco. Estes pais desesperam por uma explicação.. é compreensível. Querem encontrar um culpado..  é compreensível. Precisam de respostas para fazer o luto. Mas ver os filhos como vitimas? Já não é tão compreensível. Os filhos não eram caloiros. Eram jovens que viviam este mundo das praxes na perspetiva dos que praxam, alimentavam as hierarquias e os estatutos que se criam em torno deste fenómeno. Como tal, não acredito que fossem vítimas ou que tenham sido forçados ao que quer que seja. Foram vítimas de uma tragédia, infelizmente. Foram vítimas de alguma inocência. Foram vítimas das brincadeiras que defendiam e isso é uma tragédia. O Dux? É mais uma vítima desse sistema. Infelizmente neste momento está a ser julgado em praça pública e muitos querem fazer dele culpado. Terá alguma culpa? Possivelmente terá, a mesma que os que faleceram. Ao contrário dos outros, ele viverá com essa culpa para o resto da vida e nada irá diminuir a angústia que certamente o assombrará quando estiver à noite deitado na sua cama a tentar adormecer. Acredito que são todos vítimas e todos culpados.  Mas espero acima de tudo que não tenha sido em vão.