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Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

O SNS e o médico de família

 

Enquanto criança e adolescente nunca fui a um pediatra. A minha mãe, que era quem tomava as decisões relativas à saúde e acompanhamento médico das filhas, nunca procurou um pediatra. Nunca sentiu essa necessidade. Terá ajudado a essa opção o facto de termos sido sempre saudáveis e não termos necessitado de qualquer cirurgia ou tratamento especializado. Durante a maior parte da minha vida só conheci uma médica, a médica de família. Esta médica era aquilo a que realmente se pode chamar médica de família. Tornou-se médica da minha mãe depois de se casar, acompanhou-a nas duas gravidezes e foi a minha médica e da minha irmã até se reformar. Já eu era adulta e trabalhava quando tal aconteceu. Para mim, este conceito de médico de família faz sentido quando ocorre deste modo. Quando há um médico que efetivamente conhece a família, o seu estilo de vida e acompanha de perto o crescimento e desenvolvimento dos seus elementos ao nível da saúde física e mental. É verdade que quando era necessário reencaminhava-nos para algum especialista. Mas era a pessoa em quem os meus pais confiavam, a quem pediam ajuda e questionavam sobre a normalidade dos sintomas e problemas das filhas. Para pessoas como os meus pais, que tiveram reduzida formação, que conheceram a pobreza na infância e que viveram sempre em meios pequenos, a opção por um pediatra nunca se colocou. Era talvez visto como uma opção dos mais ricos e abastados. O que não seria necessariamente um obstáculo para nós, porque o meu pai sempre teve seguro de saúde para a família completa, mas ainda assim, os médicos privados nunca eram a primeira opção. Resultavam sempre da indicação do médico de família. Acho mesmo que a minha família era um bom exemplo dos clientes que as seguradoras gostam de ter. Pagam, mas não usufruem.

 

Eu, na minha inocência e imaturidade de adolescente e jovem adulta achava sempre que se deveria recorrer aos especialistas, porque estes é que estudaram, são especializados e sabem sempre o que é melhor. Durante alguns anos fui consumidora frequente de consultas de dermatologia, nutrição e ginecologia. Em algumas situações fazia de facto sentido, noutras situações claramente não era necessário, mas só agora percebo isso. Sempre imaginei que quando fosse mãe, os meus filhos seriam acompanhados pelos melhores médicos, no privado naturalmente. Quando pensei em engravidar comecei a deparar-me com esta questão. Público ou privado? Obstetra ou médico de família? Pediatra ou médico de família? Embora o privado envolva custos superiores, os seguros (ainda que caros) facilitam o acesso a estes serviços.  E, felizmente, as minhas opções não se prenderam a questões financeiras.

 

Ao contrário do que sempre imaginei, durante a gravidez fui acompanhada pelo médico de família. Não fazia ideia que o SNS tinha um esquema de consultas, análises e ecografias para grávidas tão bem definido. Quando na primeira consulta percebi que iria ter tantas consultas e em que consistiam, tomei a decisão de manter este acompanhamento com a consciência de que não hesitaria em recorrer a um obstetra caso fosse diagnosticado algum fator de risco em mim ou no bebé. Contribuiu bastante para esta decisão o meu novo médico de família (também do meu marido) ser novo e adepto de uma relação mais aberta, que contempla na sua atividade a possibilidade de comunicar com os utentes por telefone e e-mail.   Considero que fui bem atendida, as minhas dúvidas foram esclarecidas e fui alertada para uma variedade de aspetos a considerar na gravidez. Agradou-me também o facto de as consultas terem sido sempre pontuais, aliás, com uma pontualidade que não observo na maioria dos serviços privados.

 

Claramente, verifico que os serviços dos centros de saúde, atuais USF, sofreram uma positiva evolução nos últimos 30 anos, desde a gravidez da minha mãe até à minha. Os médicos já não são os Senhores Doutores, cheios de certezas e razão, a quem não se podia colocar em causa as opiniões, quem chegavam atrasados às consultas e ainda saíam durante meia hora para tomar o pequeno-almoço, paravam novamente para lanchar e repetiam a rotina durante a tarde com o café pós o almoço e o lanche da tarde, mesmo nas barbas dos utentes, que perdiam as manhãs ou tardes de trabalho, que ficavam revoltados com as horas de espera, mas que, ainda assim, quando entravam no consultório do doutor eram incapazes de se afirmar e protestar. Claro que para esta mudança positiva terá contribuído o facto de termos utentes mais formados, conhecedores dos seus direitos e deveres, com maior acesso à informação, que sabem reivindicar e protestar, que recorrem aos livro de reclamações se necessário e que já não idolatram os médicos de família e não os consideram senhores únicos da razão.

 

Atualmente, o meu bebé é acompanhado pelo médico de família e pelo enfermeiro de família (mais uma novidade positiva) e eu gosto desde acompanhamento. É pesado, medido, observado. Questionam-me sobre o seu sono, alimentação, choro, cólicas, comportamento e interação. Preocupam-se comigo e com a minha capacidade para exercer o papel de mãe. Dão conselhos e são recetivos às minhas preocupações e compreensões. O médico e o enfermeiro conhecem a família que eu estou a construir e serão sempre pessoas importantes na nossa vida. Agrada-me bastante saber que o meu filho tem duas pessoas no SNS que o veêm a crescer, o vão conhecer de perto e estarão, possivelmente, mais capazes de detetar sintomas e problemas que possam surgir. O meu filho também tem um bom pediatra, cujas consultas são caríssimas. Optei por fazer este acompanhamento apenas por receio. Receio de quê? Não sei. Acho que são os medos de mãe de primeira viagem. O querer fazer e dar o melhor ao meu bebé. Até ao momento ainda não tive razão para grandes preocupações. Por isso mesmo, o meu bebé é frequentemente acompanhado pelo médico de família e observado pelo Pediatra a cada 3 meses, o que me parece um período curto, mas suficientemente alargado para que ocorram mudanças significativas na sua vida e sejam necessários ajustamentos na gestão das rotinas e cuidados a prestar ao bebé.

 

Apesar das dificuldades que o nosso país atravessa e dos cortes nos vários ministérios, fico feliz por constatar na primeira pessoa que o SNS que temos apresenta elevada qualidade, tem profissionais competentes e, no meu meio, excelentes infraestruturas. Naturalmente e injustamente, não é um serviço que esteja de igual modo ao serviço de todos, apesar de teoricamente o ser. Mas, todos sabemos que há localidades sem USF, há utentes sem médicos de família, outros que esperam meses ou anos por consultas e exames. Mas ainda assim, acho que temos de reconhecer o que de bom existe no nosso país e sem dúvida que o nosso SNS é sem dúvida uma das mais-valias deste pequeno país à beira mar plantado.