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Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

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O desafio de educar

 

O meu constante contacto com crianças e pais fez-me compreender já há alguns anos que a educação é um dos maiores desafios que os pais enfrentam. Numa perspetiva mais simplista, pode-se pensar que educar uma criança é fácil. Afinal, já o fazem há milhões de anos. A maior parte das pessoas que conhecemos e que nos circundam têm filhos. As gerações mais velhas não tinham a formação, nem os cuidados de saúde que atualmente existem e foram capazes de educar milhões de crianças, como tal, não deve ser difícil. No entanto, o que é educar? Acredito que para muitas pessoas, o principal se resuma à capacidade dos pais em responder às necessidades básicas dos filhos, como alimentá-los, vesti-los, dar-lhes formação, amor e incutir-lhes determinados valores. Mas, e como é que isto se faz? Na minha opinião, é aqui que reside a dificuldade em educar.

 

Educar uma criança, ajudá-la a viver uma infância feliz e uma adolescência equilibrada de forma a criar jovens adultos saudáveis, é um verdadeiro desafio e mais difícil do que parece. E porquê? Porque a forma como os pais lidam com os filhos durante o processo de crescimento tem impacto não só no imediato, mas também em quem essas crianças vão ser no futuro. A visão que os pais têm dos filhos e a mensagem que lhes transmitem influência a perspetiva que a própria pessoa tem de si. Pensemos no caso da insegurança. Um adolescente inseguro, que dúvida de si, das suas competências, das suas capacidades para ser bem-sucedido, para ser aceite socialmente,.. terá muito mais dificuldades na idade adulta em tomar decisões, arriscar, enfrentar problemas e viver uma vida feliz com menor ansiedade e tristeza.  Como é óbvio poderá ser alvo de apoio e tentar aprender a gerir as suas dificuldades. Mas ainda assim, em algum momento sofreu por ser assim. E qual é o papel dos pais? É único. Fundamental. O modo como os pais se relacionam com as crianças, a confiança que lhes transmitem, as expetativas que têm sobre as suas capacidades, a forma como reagem aos seus sucessos e fracassos,.. tudo isto influencia a imagem que a criança/adolescente constrói sobre si próprio, a forma como se vê a si, o quanto gosta de si e como consequência a relação que tem com os outros.

 

Educar é um processo complexo, dinâmico e extremamente exigente. Ainda assim, muitos pais são capazes de fazer um bom trabalho, sem que para tal necessitem de formação ou apoio especializado. Para isso é preciso estar atento. Atento aos filhos. Aos sinais que estes dão. Fazer um esforço para compreender os comportamentos dos filhos. Procurar interpretar as situações de acordo com as perspetivas dos filhos. Ser capaz de sair do pedestal de autoridade de pais, de donos da razão, do “eu é que sei” e procurar explorar o que está por detrás dos sinais que os filhos dão. E o que é necessário para isso? Na minha modesta opinião é indispensável um conjunto de ingredientes que se relacionam entre si. Amor, muito amor. Amor incondicional. E por incrível que pareça há muitos pais que amam menos os filhos se estes não são bons alunos, ou se são gordos, ou se são desafiadores,.. amar incondicionalmente é amar acima de todas as condições. É passar aos filhos a mensagem de que até podemos não gostar e até reprovar algum dos seus comportamentos, mas amámo-los sempre e acima de tudo. Disciplina. Não autoridade. Não ditadura. Não negligência. Não indiferença. Ser capaz de ensinar os filhos a respeitar a autoridade dos pais, não sob efeito do medo, mas do respeito. Ensinar-lhes que existem limites para os comportamentos. Ensinar-lhes que todos os comportamentos têm consequências,.. às vezes positivas, outras vezes negativas. Ensiná-los a fazerem-se respeitar, para serem respeitados. E por último, bom senso. Muito bom senso, para ser capaz de analisar as situações e atuar de acordo com o que será mais ajustado à idade, à situação, às expetativas, às frustrações. Não existem fórmulas mágicas, receitas ou manuais de instrução, como tal é fundamental estar disponível mental, física e emocionalmente para experimentar, tentar, falhar, remediar, experimentar de novo, ser bem-sucedido, repetir, ajustar e assim continuar. 

 

Em função disto, quem deve ser pai ou mãe? Conheço muitas pessoas que se fossem sujeitas a alguma prova de parentalidade reprovariam de imediato. Não por serem pouco inteligentes, não terem dinheiro ou serem desinteressados. Antes, porque colocam outros interesses acima da educação dos filhos, porque se preocupam demasiado com o que os outros vão pensar ou dizer, porque acham que ser bom aluno é mais importante que ser feliz, porque não querem saber se os filhos estão tristes ou o que pensam sobre as atitudes dos pais. Há muitos pais que claramente matam o futuro dos filhos, lhes destroem o amor-próprio e as oportunidades para serem felizes. Às vezes penso que os pais, antes de serem pais, deviam ter formação sobre os desafios que os esperam. Mas os desafios à séria. Não saber que roupa comprar ou em que escola colocar, mas sim, saber o que ajuda os filhos a sentirem-se amados, o que os faz gostarem de si próprios, saber como os ajudar os filhos a lidar com a rejeição dos amigos, a enfrentar as dificuldades, a serem capazes de se levantarem após fracassarem e continuarem, sem desistir,... Acho mesmo que muitos pais não fazem a mais pálida ideia de como atuar nestas situações e muitas vezes prejudicam ainda mais os filhos.

 

Tudo isto faz-me pensar que foi uma hipocrisia a lei da co-adoção não ter sido aprovada. É algo ridículo, sem sentido e que claramente não atende ao que realmente importa na educação de uma criança. Não acredito que o mais relevante seja ser educado por duas mulheres, dois homens ou uma mulher e um homem. O mais relevante, como já disse, é que quem cuida, cria seja capaz de amar incondicionalmente, seja capaz de disciplinar em democracia. Que seja capaz de fazer as crianças sentirem-se amadas, respeitadas e que lhes proporcionem as oportunidades que precisam para serem felizes e viveram as suas vidas de forma plena. É ridículo considerar-se que um casal heterossexual está mais capaz de o fazer do que um casal homossexual. Mais uma vez, quem tem o poder de tomar decisões no nosso país não está a focar-se no que realmente interessa. Nos direitos das crianças. Nas oportunidades que lhes devem ser dadas. Penso que ontem foi um dia vergonhoso para todos, para o País. Foi um dia em que o País teve a oportunidade de mostrar que quer evoluir, crescer, mas que deixou o preconceito falar mais alto e permitiu que o “nim”, a abstenção tomasse a decisão.