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Trivial e Singular

Um blog simples e único sobre as trivialidades e singularidades da (minha) vida

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Como educar a prazo?

Há umas semanas conheci um casal na casa dos 40 e tal anos. Pais de uma criança de 8 anos, vivem há dois anos com a ameaça de uma doença fatal. À mãe foi diagnosticado um cancro há dois anos. Entre muitas consultas, internamentos, cirurgias, tratamentos de quimioterapia e radioterapia, medicamentos,.. os resultados não têm sido animadores. Há dois anos que esta mãe não trabalha. Os seus dias são focados nos tratamentos e no “um dia de cada vez” com a esperança de que no futuro esteja a resposta, mas com o medo de o amanhã poder não acordar para ela. Atualmente, está a realizar um tratamento experimental e não tem prognóstico. A forma de viver com isto é vivendo um dia de cada vez e focando-se nas coisas mais quotidianas de vida de cada um de nós.

O filho, no terceiro ano, sabe que a mãe tem um cancro, que é uma doença grave, mas sabe também que a mãe está a fazer tratamentos. Por isso, vai ficar bem.  A sua ingenuidade não lhe permite perspetivar a dor do seu amanhã.  Os pais dizem que o filho anda muito desafiador, pouco cumpridor, muito focado na brincadeira e muito pouco interessado na escola. A mãe diz-me que por causa da doença, e apesar da doença, procura ser exigente com o filho. Educá-lo de forma a que ele se torne independente, responsável e autónomo, capaz de lidar com as dificuldades do dia-a-dia e com todas aquelas que vão surgir a partir do momento em que a mãe partir. O filho diz que a mãe é uma chata, que está sempre a dar ordens, a mandar fazer coisas, a fazer recomendações, a ameaçar e a ralhar. Passa o tempo deitada e não pode fazer esforços. Por causa disso, ele e a mãe fazem muito poucas atividades em conjunto e as rotinas limitam-se à vida familiar. Prefere a companhia do pai, que é mais brincalhão, que o leva a passear, que ralha menos e dá menos ordens.

Será que a mãe sabe que é assim que o seu filho vê a realidade familiar? Sabe, tem de saber. Eu acredito que sabe, apesar de não ter sido capaz de lhe perguntar. E como lida com isto? Como será querer preparar um filho para a dor, sofrimento e uma vida sem mãe, mas ao mesmo tempo querer mimar, brincar, proteger e evitar a dor? Como é que uma mãe em sofrimento lida com este dilema? Como é que se consegue o meio-termo entre o mimar, abraçar, beijar, permitir, agradar, dar, favorecer sabendo que amanhã não o poderá fazer e que tem de instruir, preparar, autonomizar, responsabilizar para que amanhã o filho possa estar um pouco mais preparado para a longa caminhada que tem pela frente? O que será mais difícil para esta mãe, a expectativa de uma vida a prazo ou a expectativa de um filho sem mãe para o resto da vida?